quarta-feira, 26 de maio de 2010

AI SE SÊSSE ( Zé da Luz )


Se um dia nóis se gostasse;
Se um dia nóis se queresse;
Se nóis dois se impariásse,
Se juntin nóis dois vivesse!
Se juntin nós dois morasse
Se juntin nóis dois drumisse;
Se juntin nóis dois morresse!
Se pro céu nós assubisse,
Mas porém, se acontecesse
Qui São Pêdo não abrisse
As portas do céu e fosse,
Te dizê quarqué tolíce?
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse,
Prá qui eu me arrezorvesse
E a minha faca eu puxasse,
E o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nóis dois ficasse
Tarvez qui nóis dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virge tôdas fugisse!!!


sábado, 8 de maio de 2010

Soneto do amor total ( Vinicius de Moraes )
















Amo-te tanto,meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

TIPOS DE ASSALTOS


  • Assalto gaúcho:

- "Ô guri, fica atento… Bah, isso é um assalto... Levanta os braços e te aquietas, tchê! Não tentas nada e cuidado que esse facão corta uma barbaridade. Passa as pila pra cá! E te manda a la cria, se não o estrago vai ser grande, tchê!!!"

  • Assalto mineiro:

- "Ô sô, prestenção... Isso é um assarto, uai... Levanta os braço e fica quietim quesse trem tá chei de bala... Mió passá logo os trocado que eu num tô bão hoje. Vai andando, sô! Tá esperando o quê, uai?"

  • Assalto paulista:

- "Aí, meu... Isso é um assalto, falô... Levanta os braço, meu... Passa a grana aí. Mais rápido, sinão vai ter pipoco, que eu ainda preciso pegá a bilheteria aberta pra comprá o ingresso pro jogo do Cúrintiâns, meu... Pô, se manda que a casa cai pro seu lado mano, falô..."

  • Assalto carioca:

- "Seguinte, bicho... Tu te deu mal. Isso é um assalto. Passa a grana e levanta os braço, rapá... Não fica de bobeira que eu atiro bem ... Vai andando e se olhar pra trás tu vai virar presunto. E anda logo que eu tô com pressa, cara! Tem jogo do Mengão daqui a pouco!!!"

  • Assalto baiano:

- "Ô meu rei...Isso é um assalto... Levanta os braços, mas não se avexe não... Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado... Vai passando a grana bem devagarinho. Num repara se o berro tá sem bala, mas é pra não ficar muito pesado... Não esquenta meu irmãozinho. Vou deixar teus documentos na próxima encruzilhada."

  • Assalto cearense:

- "Ei bixim... Isso é um assalto... Arriba os braços e num se bula nem faça muganga... Passa vexado o dinheiro senão eu meto essa pexera no teu bucho e boto teu fato pra fora... Perdão meu Padim Ciço, mas é que tô com uma fome da mulesta dos cachorro!!!

  • Assalto braziliense:

- "Votem em mim! Eu prometo fazer muitas coisas por vocês! Prometo consertar esse país, prometo investir na saúde, educação e na economia! Vou fazer maravilhas por esse país! Nos meus governos passados, eu já construi aeroportos, pontes e hospitais. Já fiz projetos que salvaram milhões de vidas e renderam dezenas de milhões de empregos! E agora, se vocês votarem em mim, prometo fazer o dobro! Ou melhor, o triplo! Votem em mim!"

domingo, 7 de março de 2010

Luvas de Lembrança

Luvas de Lembrança

O namorado está em Nova Iorque e resolve mandar um presente para sua namorada. Entra em uma loja finíssima, mas não sabe o que escolher. Observando a elegância das novaiorquinas mesmo no frio, resolve pegar um caríssimo par de luvas e mandar para ela.

Ele pede para que a balconista embrulhe com um lindo papel de presente, enquanto vai ao caixa pagar. Descuidadamente, ela lhe entrega outro pacote, com o mesmo papel de embrulho, contendo dentro uma calcinha de nylon.

Sem saber do engano, o namorado envia o presente com um bilhete:

“ Querida. Para mostrar que mesmo estando longe não me esqueço de você, envio-lhe esta surpresa, mesmo sabendo que você não gosta de usar, pois neste tempo todo que estamos juntos nunca te vi usando uma. Gostaria de estar aí para poder ajudá-la a vestir. Fiquei em dúvida quanto à cor, mas a balconista me falou que esta não descora nem mancha. Ela mesma experimentou para eu ver se ficou boa. Aprovei na hora. Acho que em você vai ficar um pouquinho larga na frente, mas ela disse que é normal, pois facilita para que os dedos se mexam mais à vontade. Depois de usá-la, vire pelo avesso e ponha um pouco de talco para evitar o mau cheiro por causa do suor, tá? Espero que você esteja tão satisfeita quanto eu, pois ela vai cobrir aquilo que em breve irei lhe pedir.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Defenestração

Defenestração

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
-- Os hermeneutas estão chegando!
-- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
-- Alô...
-- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
-- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico.
Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
-- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. "Defenestração" vem do francês "defenestration". Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como o rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
-- Lês defenestrations. Devem ser proibidas.
-- Sim, monsieur le Ministre.
-- São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
-- Sim, monsieur lê Mnistre.
-- Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: "Interdit de defenestrer". Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
-- É essa estranha vontade de jogar alguém ou algo pela janela, doutor...
-- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar -- diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-- Querida...
-- Mmmm?
-- Há uma coisa que preciso lhe dizer...
-- Fala, Amor
-- Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama:
-- Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO!
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:
-- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
-- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.


Luís Fernando Veríssimo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Palíndromos

PALÍNDROMOS



Chamamos de palíndromo a palavra ou frase que pode ser lida/escrita da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Este vocábulo é de origem grega. Os elementos palin ( de novo) e dromo ( percurso ) nos dão a ideia de que estas palavras ou frases nos remetem ao mesmo sentido independentemente do inicio do seu trajeto.
Embora as frases palindrômicas pareçam ser a perfeição da simetria e tenham sido consideradas mágicas pelos antigos, muitos as consideram sem importância, visto que em sua maioria, são frases sem muita expressão. Vamos nos divertir um pouco?



PALAVRAS

arara
ovo
Ana
reviver
rir
osso
socos
Bob
reler
sopapos
radar
ele
Oto
raiar
anilina




FRASES


Oi, rato otário!
A base do teto desaba.
A grama é amarga.
Ame o poema.
Anotaram a data da maratona?
A sacada da casa.
E até o Papa poeta é.
Ele padece da pele.
Eva, asse essa ave!
Livre do poder vil.
Erro comum ocorre.
A mala nada na lama.
O Cid é médico.
Adias a data da saída.
A diva em Argel alegra-me a vida.
Assim, a sopa só mereceremos após a missa.
O pó de cocaína mata maníaco cedo, pô!
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!
Roda esse corpo, processe a dor!
A Daniela ama a lei? Nada!